U.S. AND WORLD ECONOMY

  
A economia política da regeneração
  
Norman Gall
     

Braudel Papers - Nº 8, 1994   

A ameaça do aumento da mortalidade adulta, à medida que as populações envelhecem, nos adverte sobre a possível implosão de muitas populações urbanas. Especialmente vulneráveis são os povos que sofrem de desnutrição cujos sistemas de saúde pública foram abalados pelo empobrecimento e a inflação crônica. O sinal mais forte vem do antigo bloco soviético, onde a expectativa de vida dos homens vem diminuindo nas últimas três décadas. O rompimento dos sistemas de saúde pública acelerou-se com o colapso do comunismo, na década de 1990. A mortalidade russa aumentou em 20% em 1993, após um crescimento de 7% em 1992. O aumento da mortalidade foi muito alto entre os homens em idade ativa. O ressurgimento de doenças epidêmicas nas cidades latino-americanas é outro sinal perigoso. Mais sinistro ainda é o colapso econômico das cidades africanas, onde a imigração provoca o crescimento da população urbana de longo prazo mais rápido que o mundo já assistiu.

Membros do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial visitaram recentemente a Rússia para comparar o impacto da inflação sobre os sistemas de saúde pública naquele país e no Brasil. Estamos também engajados em uma pesquisa sobre os problemas de saúde pública nas cidades de Fortaleza e São Paulo. Estamos tentando encontrar maneiras de tratar racional e corajosamente os processos de inflação crônica e a ameaça de aumento da mortalidade adulta que pode se intensificar no início do próximo século. Tendências perturbadoras estão surgindo até mesmo nos países ricos. Na Inglaterra, apesar da universalidade de seu Serviço Nacional de Saúde, a mortalidade entre os homens de 15-44 anos de idade aumentou desde 1985, invertendo uma tendência de declínio de muitas décadas, com a mortalidade adulta entre os pobres voltando aos níveis da década de 1940. Fora dos países ricos, são escassos os dados sobre as populações pobres. A epidemia de cólera da América Latina mostra como os sistemas de sobrevivência, em especial as redes de água e esgotos que defendem as cidades contra as doenças infecciosas, se enfraqueceram sob as pressões das migrações, do crescimento populacional e da inflação crônica. Fortaleza sofreu o pior surto fora do Peru, vítima desde 1991 de urna das maiores epidemias de cólera já registradas no mundo. Seu impacto na capital cearense foi reforçado por novas irrupções de dengue, meningite e leptospirose. Essas epidemias teriam sido mais destruidoras se não fossem controladas por equipes dedicadas de saúde pública. Contra a ameaça de implosão das populações urbanas, os ensaios de Tarun Dutt e Shane Hunt neste Braudel Papers geram esperança: o colapso pode ser evitado com uma economia política de regeneração. Os elementos disso são: (1)contas fiscais equilibradas; (2) governos com credibilidade; (3) cooperação entre líderes políticos e empresariais; (4) políticas sociais responsáveis; e (5) apoio internacional.

As experiências recentes de Calcutá, Lima e Fortaleza mostram que a regeneração pode ser conseguida dentro desses parâmetros, embora de forma não espetacular e com o risco contínuo da relapsia e do fracasso. Fundada para ser um posto comercial britânico em 1691, Calcutá é uma cidade mais jovem que São Paulo, Rio de Janeiro ou Lima. Ela dramatiza as dificuldades que enfrentam as cidades pressionadas por problemas de escala e que não conseguiram consolidar as súbitas explosões de crescimento dos últimos cem anos. Entre 1891 e 1911, a população de Calcutá quadruplicou de 469 mil para 1,7 milhões. Na mesma época, entre 1880 e 1920, o número de habitantes de Nova York triplicou atingindo 5,6 milhões. Em explosão semelhante, Los Angeles deixou de ser uma pequena cidade de 11 mil moradores em 1880 para se tomar a quarta maior cidade dos Estados Unidos. Depois que a Revolução Bolchevique restaurou-lhe o papel de capital imperial, Moscou viu sua população multiplicar-se de 970 mil, em 1920, para 5 milhões, em 1940. Em Lima, o número de habitantes subiu de apenas 100 mil, em 1900, para 7 milhões hoje. Todas essas cidades devem administrar problemas de escala que exigem soluções novas. Todas precisam achar meios de tratar de forma civilizada os excedentes cada vez maiores de população adulta, cuja boa parte não é treinada e não pode ser facilmente absorvida pelas economias modernas, com códigos claramente definidos de direitos e obrigações.

O Brasil precisa também de consolidação urbana. A proporção da população urbana cresceu imensamente neste século, aumentando de 11%, em 1920, para 75% hoje. O número de cidades brasileiras com mais de vinte mil habitantes multiplicou de apenas 51 em 1940 para quase 500 atualmente. Em 1960, o Brasil tinha apenas duas cidades com mais de um milhão de habitantes; hoje, há onze, com São Paulo e Rio de Janeiro entre as dez maiores do mundo.

Os problemas de escala têm muitas faces, amiúde enfatizadas por crises de abastecimento de água. Fortaleza tem agora 2,5 milhões de habitantes, depois de crescer dez vezes desde 1950. Enquanto sua população aumentou em cerca de dois quintos desde 1980, o consumo de água multiplicou-se por cinco. Esse aumento do consumo de água numa região sujeita a secas severas acarreta riscos grandes. A partir de 1991, o Nordeste foi atingido por uma seca de três anos e o fornecimento de água para Fortaleza chegou quase ao colapso em setembro de 1993, evitado pelo governo estadual com a construção em apenas 89 dias de um canal de 115 quilômetros para trazer água de um reservatório distante.

Outras cidades buscam soluções de emergência para crises de água geradas pela negligência dos problemas de escala. A Cidade do México, com 18 milhões de habitantes, puxa água de um local 2.000 metros abaixo e 200 km, distante da cidade, usando seis usinas elétricas de mil megawatts cada. A metade das 570 cidades da China sofre com escassez de água. O país vai construir um aqueduto de 1.100 km para evitar o colapso do fornecimento de água para os 12 milhões de habitantes de Pequim.

As epidemias de cólera em Calcutá, Lima e Fortaleza levaram os governos a políticas de regeneração. Todas as três vieram após grandes ondas de imigração. O surto de cólera de 1958 em Calcutá irrompeu em meio à multidão de imigrantes que invadiu a cidade após a divisão da Índia em 1947. A epidemia de 1991 nas cidades da costa desértica do Peru ocorreram após a intensa migração dos Andes em reação à seca e à violência política. Os 60 mil casos de cólera de Fortaleza desde 1992 concentraram-se entre os novos migrantes depois que a população favelada da cidade aumentou de 358 mil, em 1985, para 545 mil, em 1991, um crescimento de 52% em seis anos. O impacto da seca e da epidemia teria sido pior em Fortaleza se as políticas de regeneração não tivessem gerado investimentos públicos responsáveis, cooperação entre líderes políticos e empresariais, maiores esforços dos governos estadual e municipal para conter os efeitos da pobreza e apoio internacional para melhorar a infra-estrutura urbana, em especial os sistemas de água e esgotos. Isso também aconteceu em Calcutá, uma sociedade urbana muito mais pobre onde a mortalidade infantil é a metade da média brasileira. O nível de organização humana é o que importa. A economia política da regeneração pode fazer a diferença.

 

 

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