U.S. AND WORLD ECONOMY

  
"Sem estabilidade não há salvação"
  
Norman Gall
     

Braudel Papers - Nº 6, 1994   

Na cerimônia de posse como novo ministro da Fazenda do Brasil, Rubens Ricupero, presidente do Instituto Femand Braudel de Economia Mundial, fez uma advertência que tem sido a mensagem de nosso Instituto desde a sua fundação, em 1987: "A prioridade absoluta neste momento é o combate à inflação. Fora da estabilidade não há salvação. Sem estabilidade não há programa social, nem possibilidade de corrigir desequilíbrios distributivos que continuam a ser gerados diariamente pela inflação. Sem estabilidade não existe esquema regional ou global de comércio que possa ser aproveitado."

O embaixador Rubens Ricupero foi um dos lideres de um pequeno grupo de economistas, empresários, jornalistas e funcionários que fundaram nosso Instituto. A preocupação deles com o impacto cumulativo da políticas auto-destrutivas que levavam alguns países a se apagar da economia mundial levou-nos a desenvolver um programa de pesquisas e debates públicos sobre o problema civilizacional da inflação crônica. As razões motivadoras de nosso trabalho estão na advertência de Ricupero:

"Devido à nostalgia da idade de ouro dos anos 50 e do erro de considerar a pregação anti-inflacionária uma causa conservadora, acabamos por nos converter no povo de maior indulgência com a inflação. Não percebemos que o crescimento inflacionário daqueles anos foi a semente de onde brotou a dolorosa crise dos anos sessenta e a interrupção do processo democrático. Tampouco nos demos conta de que só os ricos e poderosos conseguem conviver e prosperar com a inflação, enquanto aos pobres resta apenas o achatamento de salários degradados. Será pura coincidência sermos, ao mesmo tempo, o pais da inflação crônica e do desequilíbrio na distribuição de renda? Além de acirrar o incessante conflito distributivo, de devastar os hospitais e sistemas de saúde, de aniquilar tudo o que se fez para melhorar a educação pública desde Anísio Teixeira, de aviltar os salários dos funcionários públicos e desmantelar o próprio Estado, a inflação ameaça agora de perto a própria alma do país: os seus valores e aspirações morais. Como na Berlim e Viena dos anos vinte, aqui também a inflação, ao premiar a especulação e o aventureirismo, ao roubar do ser humano o sonho do futuro e obrigá-lo a um imediatismo sem horizontes, ao relativizar todos os valores do trabalho árduo, da poupança, do comedimento, conduz inelutavelmente à corrupção dos costumes públicos e privados, ao apodrecimento moral das sociedades."

Um grupo de pesquisadores do Instituto Femand Braudel de Economia Mundial viu as conseqüências do apodrecimento moral e da inflação crônica quando visitou a Rússia em dezembro passado. Os acontecimentos na Rússia têm um significado específico para o Brasil, porque a inflação crônica em ambos os países agravou os problemas do federalismo, da saúde pública, da mortalidade, das transferências financeiras e da corrupção.

A mortalidade na Rússia aumentou 20% em 1993, depois de um aumento de 7% em 1992. A humanidade raramente experimentou surtos de mortalidade nessa escala, associados no passado a guerras, pestes e fomes. O aumento da mortalidade adulta pode fazer parte de urna implosão mais geral das populações urbanas, especialmente na América Latina e na África. A maioria das cidades comprometeu-se a fornecer enormes subsídios a seus habitantes sob a forma de água potável, transporte, saúde, aquecimento e aluguel gratuitos ou a preços muito abaixo do custo do fornecimento. Subsídios como esses atraíram mais migrantes, aumentando o tamanho das cidades, levando à falência seus governos e deixando-os à míngua dos recursos necessários para manter os serviços públicos básicos. A decadência dos sistemas urbanos de abastecimento de água na América Latina em conseqüência das pressões de escala e da prolongada descapitalização levou a uma epidemia de cólera do início da década de 1990 que já atingiu 21 países.

Os subsídios nas cidades russas estão na base da fragilidade dos sistemas de sobrevivência e das finanças públicas. Até recentemente, o preço dos aluguéis estava congelado ao nível de 1928. Em São Petersburgo, a população paga apenas 2% dos custos de manutenção das moradias (incluindo nisso aquecimento, gás, água e esgoto), o que ajuda a explicar a deterioração dos prédios de apartamentos da maioria das cidades russas. Desde 1990, os gastos per capita com saúde em São Petersburgo caíram de apenas 3 dólares para 1 dólar. A economia debilitada da cidade sustenta 1,2 milhões de pensionistas, numa população de 5 milhões de habitantes. A metade da força de trabalho da cidade está empregada pelo complexo industrial-militar em declínio, que tem atualmente metade de seus funcionários em licença sem remuneração. Outras 600 mil pessoas são estudantes ou trabalham em institutos de pesquisa. Não é de surpreender que a cidade esteja perdendo população. No ano passado, houve duas vezes mais mortes do que nascimentos. Desde 1988, a taxa de natalidade de São Petersburgo caiu pela metade, enquanto que a de mortalidade aumentou 20%. Quando perguntei para uma amiga sobre a baixa taxa de natalidade, ela retrucou: "Quem pode comprar um carrinho de bebê?"

Em seu ensaio, Ricupero descreve um mundo no qual 22 países, com cerca de 800 milhões de habitantes, são suficientemente ricos e estáveis para sustentar os níveis modernos de democracia, legalidade, nutrição, saúde e educação para a maioria de seus habitantes. De acordo com o Banco Mundial, esses 800 milhões de pessoas (15% da população global) geraram 79% da produção econômica mundial em 1991, depois de conseguir ganhos per capita anuais de 2,3% desde 1980. Porém, no resto do mundo, entre os 4,5 bilhões com renda média de 1.000 dólares — 5% da renda dos 800 milhões mais ricos — a produção per capita recuou em 43 dos 82 países para os quais dispomos de estatísticas. E os números seriam muito piores, não fora o desempenho extraordinário da China e da Índia, que possuem quase dois quintos da população mundial e aumentaram sua produção per capita em 5,3% desde 1980. O Brasil, com sua economia estagnada, sua inflação surrealista e seus políticos parasitas, jaz entorpecido na fenda entre os 800 milhões mais ricos e o punhado de países pobres, como China, Índia, Tailândia, Chile e Coréia do Sul, que estão fazendo progressos significativos. Temos caracterizado esta fenda como polarização da economia mundial. É difícil para qualquer governo ou povo, mesmo que tenha o poder militar e econômico dos Estados Unidos, deter essa polarização. No entanto, Ricupero adverte em seu ensaio que o fracasso em democratizar a vida econômica nacional e internacional torna "inevitável que novas ideologias ou as antigas renovadas invertam a tendência à convergência e reestimulem o jogo dialético que haverá certamente de interferir no sonho de dominadores e privilegiados..." Neste final de século, a humanidade está batalhando para vencer a ameaça de fracasso institucional na gestão dos problemas de escala no tamanho das empresas, cidades e nações. Esse fracasso, provocado pelas pressões de escala, representa uma ameaça de relapsia para formas mais arcaicas de civilização e mortalidade. O medo dessa relapsia está provocando uma mudança na política das comunidades, de uma economia política de direitos adquiridos para uma de sobrevivência. Essa mudança está apenas começando e suas implicações começam lentamente a aparecer. A principal tarefa da política econômica nas próximas décadas será a da regeneração. Nosso querido Rubens está agora mergulhado nessa luta.

 

 

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